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contos que contamos ao sol.

pousa a tarde, ao lado do
teu prédio. crianças correm
da horta ao portão.
um senhor me cumprimenta,
aceno distraído, vidrado
nos mistérios de o porquê
você não desce. aquela tua vizinha,
a do cachorrinho, disse que você saiu, apressado, de camisa amarrotada.
olho insone. o sol é um círculo
sob o mundo, pega fogo.
acendo um fumo ali na rua 5.
suave, enquanto a cidade avança
sobre os carros.
meu peito dói. caminho
às cegas por aquele bairro novo,
inclusive, nada de novo na floresta.
os animais ainda se devoram.
já são quase sete. nada de você,
apenas avenidas.
cães. ratos. tantas outras coisas
menos líricas que você. e álcool,
sempre tem o álcool né.
eu mesmo nem sei das coisas,
coisa alguma. apenas flutuo entre
as pessoas. prédios. casas.
visto minha cara. vadio,
incinero pontas. pontes. cruz.
desatando um nó. um rolo.

verão nos trópicos

não é impossível de imaginar que
você devia mesmo ter caminhado plena, vestida de luz sobre a areia branca
que humildemente se enroscava
nas suas pernas. coladas no seu corpo.
não é demais pensar nas inúmeras vezes
que acreditamos estarmos certos
sobre como o amor se comporta
de forma ridícula
ou como cada vez que contávamos
segredos e estávamos nus, bem ali,
enquanto a cidade dormia.
tudo bem, as vezes, quase o tempo
todo sentir medo. eu sinto. ela também.
acredito que você esteja agora
em algum lugar contando coisas nossas,
de como éramos evoluidos.
e tudo bem, tudo vai ficar bem
enquanto ainda tiver sol.
não é impossível de imaginar, é?

estrutura romântica sobre a selva

uma única luz cega
brilha
sobre o apartamento lá fora.
água e folha,
insetos sobrevoam
nossa cama,
desfazem-se em acrobacias
perigosíssima
recitando Tavares,
o zunido das asas
traduz o tédio
em acaso,
abre um pequeno vão fendido
na casca
da árvore em chamas, anuncia em língua
de prata e encanto
seu doce veneno,
mais uma vez sua
ausência
(e sua fuga)
mais uma vez venta
em nossos olhos,
morrem-se então os insetos
kamikazes
na busca incessante
e na certeza de um instante,
um único sopro de amor
ou luz
que renovasse
a vida.

conteúdos elétricos

eu quero estender meus braços
em amor,
mas ele se afasta e se recolhe
em suas viagens espaciais
e em como os cães perambulam
pelas ruas desertas,
detalha liricamente cada pequeno
grão deixado pelas pombas
confortavelmente assentadas na janela
ao lado da sua
de onde jorra um infinito blues
e uma luz roxa que ilumina
seus olhos,
um fio de prata corta seu rosto.
por um segundo te vejo como é
e me vejo no que vejo de você
e então você passa.

disparos romanticos

a ponta da flecha cravada
no meu peito
dispara a memória de
dias dourados, cruzados
num fim-de-tarde,
quando as moscas zuniam
os teus ouvidos e você
se debruçava sobre o rio.
um raio de sol tapava
a tua nudez,
mariposas sobrevoavam
teus cabelos soltos contra
o vento da noite.uma pequena pérola rejeitada
pelo mar
e tuas mãos, duas conhas
abraçando meu corpo de barro,
desfazendo a estrutura complexa
dos meus alicerces.a terra, habitada por você,
uma aparição em meio ao caos.

confissões ao liquidificador

estou sumindo, sugado pela
tampa aberta do meu liquidificador
azul-high tech-automático,
consumido pelas inúmeras
tomadas de fios desencapados.eletrocutado e frio ainda aceno
elogios à loucura dos pratos,
ensaio danças sublimes como louvor
as causas impossíveis de espuma,
busco sentido entre as prateleiras
vazias. tão só sob os azulejos,
tão encarecido do fogo
em suas bocas, sem sequer
um único fósforo que me aqueça.

obscuro desejo

a noite se aproxima,
no seu bafo, flores juvenis
despontam pelas calçadas.
uma ave atinge o céu.e no vasto céu
uma chuva de pequenas
penas coloridas
enfeitam o quintal dos fundos,
estrelas neon
fritam o cimento da cidade
selvagem.
um cão vadio uiva.no centro,
um estremecimento,
giro bidimensional
do plexonexo
órbita
flâmulaso véu sobre seu corpo,
uma fagulha, entre estrelas
que despencam