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canto de sobrevivência

quando paira a fumaça em seus olhos
e fica difícil estender os braços,
tocar o oceano com as mãos em conha
ou cruzar o céu em suas asas,
lembre-se de resistir, de tragar a fumaça,
mas não demais. não o suficiente para decompor sua estrutura
perfeita, esse delicado arranjo singular
de santo e pecador.
você, assim como está, todo de preto se preferir. você, assim como é,
vestido de noite e tímido no primeiro
encontro, no primeiro toque.
você, acima de tudo, você,
um irmão, um amante, um amigo.
nos tempos difíceis, quando for
desconfortável ser você,
estar na sua pele, crer na sua gente.
lembre-se de manter a luz acesa, todo dia.
e resistir.

paralisante desejo

uma pequena adaga se move
no escuro do quarto,
formigas passeiam livremente
pelo seu corpo, a cara de horror
estampa a vitrine que veste
seus olhos, sua boca
muda, gesticula
coisas obscenas e breves,
um óleo pegajoso que te gruda
os braços, arranha teu rosto.
cada hora do dia é um crime,
existir preso e existir cansado,
cercado de muros, espelhos,
caminhos, confissões.
uma pequena vela tremulando
sozinha no vasto rio
do esquecimento

flutuações sobre o espaço

um vórtice mágico
de luz,  apareceu no buraco
aberto, entre o teto e o sanitário,
cintilações azuis, roxas,
giroscópicas
me atingiram. deitado,
absorto em como as estrelas
pareciam querer dançar
através da ferida aberta no teto
do banheiro,
melodiosamente marcada
por um único fio fino
e prateado
que se desenrolava preguiçoso
sobre o oceano branco do
porcelanato.
eu me deixava ir através
das luzes, através
da fresta, através da gota,
uma fome me nascia. e crescia.
e crescia. e se esticava pelo meus
ombros, pelo meu peito, meu
estômago. minha pele,
fundida à voracidade da água,
molhava meus cabelos,
esparramados
à altura dos querubins espaciais
e dos tremores. um corpo iluminado
pela sombra de Saturno.um buraco no mundo que estufa
e brilha.

viagens líquidas sobre iluminação natural

enquanto esboçava sorrisos
elaborados para a câmera,
levemente sensuais,
imitando um modelo francês
qualquer, reparei por um átomo
de tempo, em como a luz
se infiltrava pela minha pele,
distraído do palco dos outros,
meu próprio, indaguei sobre
a fina película que envolve
nossos olhos,sobre como vamos perdendo
partes e ganhando partes
e perdendo partes infinitamente
na roda das coisas, que desde que
o mundo é mundo que nada
faz sentido.aplico um filtro rebuscado
sobre a forma que eu vejo
o mundo e o corpo
que se move, exposto,
animado pelas fantasias
anônimas do público
e por ele mesmo, dançando
continuamente sobre túmulos
e pátios e creches e escolas,
uma sansara entre viver
e existir. (re)existir,
quando nada mais perece
de fato.

feito de sol

hoje, enquanto perambulava
no busão das duas, pensei
nas pequenas coisas
daquelas pessoas
sonolentas
que habitavam as cadeiras milimetricamente contadas,
que sonho elas possuíam?
indaguei-me sobre a validade
das coisas
não obtive resposta,
apenas um tranco,
o mundo vivo que se abre
à seus pés, derrepente um tiro
que acerta o peito.
derrepente buzinas
e flashes
e outros líquidos
que se derramam sobre mim

lágrimas de Tereza

a santa chora, piedosa
encima do muro,
distribui rosas
e expõe suas lágrimas
como feridas no
céu noturno,
cobre com teu manto
os pequenos.
os tortos. os desajustados.
risca no céu, em fogo,
todos os pecados.
e chora. faz verter do homem,
água.nossa senhora das lágrimas,
germinai nosso pranto.

o tecido que tecemos

compomos sentido igual
tecemos tecido?
será que nos vestimos de sentido quando saímos bêbados
e trôpegos pela cidade, imersos
nas águas trêmulas do algoz?compomos sentido igual
tecemos longos vestidos?
daqueles de noite, dourados,
mas que mascaram a sua
nudez, tão sua. tão característica
de você. imperfeita.compomos sentido igual
tecemos contos pornográficos?
cheios de tesão e poses
e fotografias de como éramos
ontem. jovens de tudo.
inacabados.compomos sentido enquanto
falamos da morte?
e do amor? e das coisas obscuras
entre as manhãs e as tardes?
a morte, uma ave amiga?compomos sentido. vestido.
amamos. fodemos. fizemos poses obscenas. fugimos. imperfeitos
ontem. hoje. morremos?