Postagens

flutuações sobre o espaço

um vórtice mágico
de luz,  apareceu no buraco
aberto, entre o teto e o sanitário,
cintilações azuis, roxas,
giroscópicas
me atingiram. deitado,
absorto em como as estrelas
pareciam querer dançar
através da ferida aberta no teto
do banheiro,
melodiosamente marcada
por um único fio fino
e prateado
que se desenrolava preguiçoso
sobre o oceano branco do
porcelanato.
eu me deixava ir através
das luzes, através
da fresta, através da gota,
uma fome me nascia. e crescia.
e crescia. e se esticava pelo meus
ombros, pelo meu peito, meu
estômago. minha pele,
fundida à voracidade da água,
molhava meus cabelos,
esparramados
à altura dos querubins espaciais
e dos tremores. um corpo iluminado
pela sombra de Saturno.um buraco no mundo que estufa
e brilha.

viagens líquidas sobre iluminação natural

enquanto esboçava sorrisos
elaborados para a câmera,
levemente sensuais,
imitando um modelo francês
qualquer, reparei por um átomo
de tempo, em como a luz
se infiltrava pela minha pele,
distraído do palco dos outros,
meu próprio, indaguei sobre
a fina película que envolve
nossos olhos,sobre como vamos perdendo
partes e ganhando partes
e perdendo partes infinitamente
na roda das coisas, que desde que
o mundo é mundo que nada
faz sentido.aplico um filtro rebuscado
sobre a forma que eu vejo
o mundo e o corpo
que se move, exposto,
animado pelas fantasias
anônimas do público
e por ele mesmo, dançando
continuamente sobre túmulos
e pátios e creches e escolas,
uma sansara entre viver
e existir. (re)existir,
quando nada mais perece
de fato.

feito de sol

hoje, enquanto perambulava
no busão das duas, pensei
nas pequenas coisas
daquelas pessoas
sonolentas
que habitavam as cadeiras milimetricamente contadas,
que sonho elas possuíam?
indaguei-me sobre a validade
das coisas
não obtive resposta,
apenas um tranco,
o mundo vivo que se abre
à seus pés, derrepente um tiro
que acerta o peito.
derrepente buzinas
e flashes
e outros líquidos
que se derramam sobre mim

lágrimas de Tereza

a santa chora, piedosa
encima do muro,
distribui rosas
e expõe suas lágrimas
como feridas no
céu noturno,
cobre com teu manto
os pequenos.
os tortos. os desajustados.
risca no céu, em fogo,
todos os pecados.
e chora. faz verter do homem,
água.nossa senhora das lágrimas,
germinai nosso pranto.

o tecido que tecemos

compomos sentido igual
tecemos tecido?
será que nos vestimos de sentido quando saímos bêbados
e trôpegos pela cidade, imersos
nas águas trêmulas do algoz?compomos sentido igual
tecemos longos vestidos?
daqueles de noite, dourados,
mas que mascaram a sua
nudez, tão sua. tão característica
de você. imperfeita.compomos sentido igual
tecemos contos pornográficos?
cheios de tesão e poses
e fotografias de como éramos
ontem. jovens de tudo.
inacabados.compomos sentido enquanto
falamos da morte?
e do amor? e das coisas obscuras
entre as manhãs e as tardes?
a morte, uma ave amiga?compomos sentido. vestido.
amamos. fodemos. fizemos poses obscenas. fugimos. imperfeitos
ontem. hoje. morremos?

contos que contamos ao sol.

pousa a tarde, ao lado do
teu prédio. crianças correm
da horta ao portão.
um senhor me cumprimenta,
aceno distraído, vidrado
nos mistérios de o porquê
você não desce. aquela tua vizinha,
a do cachorrinho, disse que você saiu, apressado, de camisa amarrotada.
olho insone. o sol é um círculo
sob o mundo, pega fogo.
acendo um fumo ali na rua 5.
suave, enquanto a cidade avança
sobre os carros.
meu peito dói. caminho
às cegas por aquele bairro novo,
inclusive, nada de novo na floresta.
os animais ainda se devoram.
já são quase sete. nada de você,
apenas avenidas.
cães. ratos. tantas outras coisas
menos líricas que você. e álcool,
sempre tem o álcool né.
eu mesmo nem sei das coisas,
coisa alguma. apenas flutuo entre
as pessoas. prédios. casas.
visto minha cara. vadio,
incinero pontas. pontes. cruz.
desatando um nó. um rolo.

verão nos trópicos

não é impossível de imaginar que
você devia mesmo ter caminhado plena, vestida de luz sobre a areia branca
que humildemente se enroscava
nas suas pernas. coladas no seu corpo.
não é demais pensar nas inúmeras vezes
que acreditamos estarmos certos
sobre como o amor se comporta
de forma ridícula
ou como cada vez que contávamos
segredos e estávamos nus, bem ali,
enquanto a cidade dormia.
tudo bem, as vezes, quase o tempo
todo sentir medo. eu sinto. ela também.
acredito que você esteja agora
em algum lugar contando coisas nossas,
de como éramos evoluidos.
e tudo bem, tudo vai ficar bem
enquanto ainda tiver sol.
não é impossível de imaginar, é?